terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

[Vilson no TNB] Seres das Sombras 0

Oi, pessoal! Voltando de férias, trago para vocês uma coisinha muito especial que V. M. Gonçalves e eu estamos cozinhando há algum tempo. O autor de A Canção de Quatrocantos: O Homem de Azul e Púrpura (um dos meus livros nacionais favoritos, cuja resenha tu podes ler aqui) me presenteou há algum tempo com um avatar em seu mundo, entre as minhas queridas guerreiras abayuká, e publicou sua primeira história em Guerreiras do Sol e da Lua I, onde Mbaraká já é uma mulher adulta. Entre nossas conversas, surgiu a ideia de postar aqui no The Nerd Bubble as aventuras de Mbaraká antes que ela se tornasse uma mensageira das Deusas. A série recebeu o nome de "Seres das Sombras" e a cada semana vocês conhecerão um capítulo da sua jornada. Espero que gostem dessa história tanto quanto eu!


Capítulo 0: Onde Começar?

As jovens tremiam nas bordas do acampamento improvisado, montando guarda melancolicamente entre as árvores ensopadas por uma tarde inteira de chuva. Felizmente o gotejar dos galhos estava lá para disfarçar as tímidas lágrimas de medo que começavam a rolar. Enquanto as guerreiras mais velhas cantavam no centro do acampamento, bebendo e acariciando os corpos firmes dos cozinheiros e carregadores, suas escudeiras imaturas não sabiam o que sentir. Finalmente veriam sua primeira batalha.
— Estou com medo, Mbaraká — disse a menina mais jovem do grupo, recostando-se no escudo da amiga. Mordia os lábios para não chorar. — Dizem que os bárbaros têm dentes afiados, como monstros.
— Calma, Airy. Calma.
Mbaraká abraçou a menina e começou a cantarolar:
— Jovem Pindá, que se aventurou, nascida em Abayuká, bem moça ela era, mas, brava e sincera, um velho rei estraçalhou.
As outras começaram a cantarolar junto, embora não tivessem vozes bonitas como Mbaraká. Canção de Pindá era sua toada favorita, pois não falava de uma guerreira experiente, mas de uma porta-escudos que enfrentara os bárbaros, tornando-se a heroína de sua aldeia.
— Nunca seremos como Pindá — resmungou tristonhamente uma das jovens. — As abayuká de antigamente iam lutar pela primeira vez antes dos quinze anos e guerreavam todo verão! Tudo que nós fizemos até hoje foi enfrentar umas às outras na praça da aldeia!
— Tudo precisa de uma primeira vez. —Mbaraká deu de ombros. — Enfrentar os bárbaros, inclusive.
— É fácil para você falar — resmungou outra. — Eu ainda não consegui escapulir com nenhum menino. Vai ser muito triste se eu morrer hoje ou amanhã.
— Me desculpe, maninha, mas não sei que garoto irá deixar você montar nele. Bem, talvez Acuti das coxas finas ou Awapé, que tem um pintinho como uma minhoca. Sobreviva à luta de amanhã, dê orgulho à nossa mãe e tenha a sorte de tê-los como maridos.
A guerreira recém-chegada deu um cascudo em uma das jovens. Ao contrário delas, era uma mulher adulta coberta de cicatrizes, os cabelos compridos adornados com plumas. Atrás dela vinham outras guerreiras mais velhas, que se referiam a ela como yara: capitã e senhora-da-guerra.
—Podem dormir um pouco, pirralhas-de-tipoia — disse ela. — Ficaremos de guarda aqui até o amanhecer.
— Talvez devêssemos deixar que elas continuassem aqui — disse uma das recém-chegadas — Se os bárbaros chegassem perto morreriam por causa do fedor de leite.
— Ou de tanto rir — disse outra.
Em meio às gargalhadas, a senhora-da-guerra deu uma piscadela e assegurou as mais jovens:

— Durmam, pequenas. Vocês vão precisar.

***

— Porta-escudos! Reagrupar! A mim! A mim!
Aos gritos se seguiu o estrondo de uma trombeta de concha. Cada som atingia seus tímpanos como uma batida de tambor. Acordando em meio a uma dezena de corpos, Mbaraká se amaldiçoou. Quanto tempo teria ficado desmaiada? Não muito, certamente, a batalha ainda corria entre o rio e a floresta; ainda podia ouvir gritos, flautas roucas de combate e silvos de flechas. Reuniu toda a força para empurrar o enorme braço que oprimia seu pescoço, levantando em um fôlego só. Viu que o braço musculoso era de uma guerreira abayuká de uma aldeia vizinha. Já fora recepcionada sua família em várias festas ao longo dos anos.
Mesmo assim fora necessário cravar sua arma na barriga dela. Mbaraká estava amedrontada, furiosa e confusa. Sabia que confrontos de fronteira com os bárbaros das árvores eram comuns, mas porque as guerreiras de Yçaúba haviam se aliado àqueles seres traiçoeiros?
Não importava. Eram inimigas agora. A velha guerreira ainda estrebuchava. Mbaraká recuperou sua ybyra do chão e retalhou a garganta da moribunda. Não se sentiu orgulhosa: não era o tipo de luta gloriosa sobre a qual se escreviam histórias; era o tipo de luta pragmática pela sobrevivência que as pessoas preferem esquecer. Não levaria da inimiga nenhum troféu para ter consigo, nem seu escalpo nem seus dedos, não carregaria consigo sequer um dente para se vangloriar depois.
— Mbaraká! Venha! — gritou a capitã conhecida.
Sendo apenas uma adolescente, jamais deveria seguir sua própria iniciativa em combate, aguardando ordens, mas vira sua mãe-de-arco, a mulher que a acolhera em sua casa para ensiná-la a lutar, cair com o rosto destruído por um golpe de machado. “Agora sou minha própria mulher”, pensou, “ninguém me protegerá, a não ser eu mesma”. A jovem porta-escudos correu até a guerreira mais velha, a mesma capitã com quem conversara ao anoitecer.
— Minha irmãzinha? — perguntou a senhora.
Mbaraká engoliu o choro e fez um gesto negativo com a cabeça. A senhora não piscou.
— Muito bem. Vamos acabar com os desgraçados.
A jovem avançou com um punhado de guerreiras. Notou que era uma das poucas porta-escudos entre elas, uma das poucas sem joias cravadas no rosto, uma das poucas sem troféus pendurados na cintura. Decidiu que não morreria. Agiria como uma das mais velhas: correu para o ruído da batalha. Uma voz cantarolava em sua cabeça, dizendo-lhe quando saltar e quando se abaixar. As flechas pararam de pousar ao solo, pois o combate se tornara próximo, lanças e machadinhas se chocando, tacapes quebrando ossos, escudos se partindo.
Mbaraká gritou ao mergulhar aybyra no estômago de uma guerreira com o dobro de seu tamanho, então puxou a arma de madeira e dentes tubarão, liberando sangue e vísceras sobre o chão. Golpeou um guerreiro no pescoço, mas a arma não penetrou a grossa couraça.
— Onde a armadura não protege! — gritou a senhora. — Lembre-se do treinamento, pirralha!
“Olhos, nariz, orelhas, queixo, bolas, coxas, axilas”. Mbaraká se lembrou das palavras que a mãe-de-arco repetia em seus ouvidos desde sempre. “Alguns bárbaros usam mais armadura, outros menos, mas eles ainda precisam ser capazes de se mover, então essas partes eles nunca cobrem com couro ou madeira: olhos, nariz, orelhas, queixo, bolas, coxas, axilas”.
Mbaraká se abaixou quando um machado de alabastro passou sobre sua cabeça e enfiou a ponta da ybyra sob o queixo desprotegido do inimigo, penetrando mandíbula acima. Enquanto o primeiro caía, com a arma ainda alojada no crânio, um segundo veio com uma adaga. Ela se esquivou e lutou para segurar seu pulso direito, fazendo-o largar a arma, depois meteu os dedos em seus olhos. O inimigo recuou, gritando de dor, e ela o trouxe ao chão com um chute entre as pernas, antes de prender seu pescoço ao chão com a própria adaga.
Mbaraká e suas aliadas continuavam avançando. O moral do bando impulsionava as guerreiras adiante, o inimigo sendo dividido e empurrado contra as árvores. Enterraram-se no exército rival como uma flecha. Pássaros e macacos explodiram pelas folhagens, como se seu mundo estivesse desmoronando.
“Olhos, nariz, orelhas, queixo, bolas, coxas, axilas”, recitava a jovem internamente, golpe após golpe, como se estivesse possuída. Os animais nas árvores fugiam, aterrorizados com o ruído da batalha, exceto poucos muriquis que continuava a se balançar sobre suas cabeças.
Aos ouvidos de Mbaraká parecia que os gritos dos macacos acompanhavam o murmúrio repetitivo em sua mente, ditando um ritmo. Uma esquiva, um soco, uma rasteira; roubara uma arma, começou a estocar. “Olhos, nariz, orelhas, queixo, bolas, coxas, axilas”, e um muriqui parecia ulular no mesmo compasso — talvez fosse sua imaginação ou o pulsar do sangue em seus ouvidos; talvez algo estivesse conversando com ela. Algo sobrenatural. Estocou e cortou com a ybyra roubada, acompanhando o ritmo ditado pelo muriqui, e não errou um golpe sequer.
Uma guerreira alta e cheia de cicatrizes saltou sobre a jovem desajeitadamente, estraçalhando seu tacape contra uma árvore; lascas de madeira se desprenderam, rasgando sua mão direita. Uma lasca menor voou e entrou em seu olho. Mbaraká estocou sua barriga e arrancou a arma rapidamente. A guerreira experiente chorou como uma criança antes de cair. Mbaraká saltou sobre o corpo convulsivo e usou o gume da ybyra para decepar sua orelha direita. Tinha agora seu primeiro troféu de guerreira: algo para pendurar em seu cinto. Gritou triunfante e sentiu que um muriqui comemorava com ela. Suas aliadas seguiam vencendo, mas a batalha não tinha terminado. Olhou ao seu redor e viu apenas corpos enquanto as vivas empreendiam uma perseguição mata adentro. Olhou para cima e viu o vulto pálido seguir de galho em galho o movimento caótico. Todos os outros seres das árvores buscavam refúgio, mas aquele seguia o fluxo da batalha.
Mbaraká jogou a orelha dentro de sua aljava, respirou fundo e seguiu o muriqui mata adentro.

Continua...

Não deixem de comentar para nos dizer o que acharam do começo da jornada de Mbaraká! Logo trarei mais informações tanto sobre Quatrocantos quanto sobre seu incrível autor - e terça que vem tem mais Seres das Sombras!!

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