terça-feira, 14 de março de 2017

[Vilson no TNB] Seres das Sombras 4



Oi, pessoal! Como hoje é terça-feira, chegou a hora de mais um pedacinho da história de Mbaraká e os Seres das Sombras. Não é querer influenciar nem nada, mas eu estou apaixonada por esse capítulo!

Se tu estás chegando agora, confira aqui o comecinho dessa saga:



Capítulo III: Chamado



— Você vai me matar? — perguntou o bárbaro.

Kuaracymiri se assustou. O monstro falava a língua delas. Mbaraká se manteve firme.

— Sim, eu vou. Vou esmagar sua cabeça com um golpe só. — disse ela. — Mas não será hoje. Você vai ter que esperar até a próxima lua.

— E as guerreiras comerão minha carne.

— Sim. Vamos assá-lo sobre o moquém. Vamos cozinhar seus miolos e suas tripas e dar tudo para as crianças.

A menina mais jovem fez uma cara feia. O monstro não parecia muito apetitoso. Na verdade, parecia haver algo de venenoso nele, como se fosse uma mistura de homem e cobra.

— Está bem, então — disse ele. — EkalKataq sorriu para mim e meu nome será gravado com cristal em seu corpo estrelado.

O bárbaro riu, deixando visível que tinha joias de pedra verde no lugar dos caninos.

— Posso saber qual deus receberá meu sacrifício?

Mbaraká pareceu confusa.

— Sacrifício?

— Meu sangue. A quem oferecerão?

Kuaracymiri contorceu o rosto de nojo.

— Eca. Ninguém aqui bebe sangue. Mas sua carne será dos convidados.

Foi a vez do bárbaro parecer surpreso.

— Vocês não têm deuses?

— Temos duas deusas, bárbaro — interferiu Kuaracymiri — e um espírito meio malvado chamado Rudá, que é traiçoeiro e dissimulado, mas ele é importante porque faz os animais e as pessoas sentirem vontade de brincar, e é assim que se fazem os bebês. Também há um espírito que faz os trovões, mas minha mãe disse que não se pode dizer o nome dele em voz alta ou um raio te parte ao meio.

Mbaraká segurou o riso. A priminha amava receber e dar explicações.

— Mas nenhum deles gosta de sangue — continuou a menina. — Eles gostam de danças, canções bonitas e fumaça cheirosa. Mbaraká canta muito bem, e sempre canta para os espíritos nas festas.

O bárbaro as encarou, desconcertado:

— Então..., se suas deusas não vivem de sangue, vocês sacrificam seus inimigos apenas por ódio? Vocês são ainda mais temíveis do que dizem as histórias.

— Nós somos. E seremos ainda mais de agora em diante.

— Mas não podem evitar o que está por vir. Dentro de pouco tempo novos exércitos descerão da Mata Antiga, e tomaremos de novo as terras que foram de nossos ancestrais.

— Seus ancestrais perderam estas terras porque eles eram fracos e nossas ancestrais eram fortes. As cinzas de minha bisavó estão nesse solo, e a terra agora é nossa.

— Pois agora vocês é que estão enfraquecidas, e a terra voltará a ser das Crianças do Milho.

A voz do homem era profunda, melancólica e ferida, mas orgulhosa. Os sons grudavam na cabeça mesmo após um instante de silêncio, incomodando como um zumbido. Mbaraká controlou o desejo de dar um pontapé no rosto do prisioneiro. Em vez disso, abaixou-se para olhá-lo nos olhos.

— Eu pensava assim antes de lutarmos. Antes de ter visto vocês de perto — disse ela, cutucando-o com o dedo indicador, como se quisesse se certificar de que era feito de carne humana. — Então as deusas falaram comigo e eu encontrei você e o capturei. Vocês usavam sua magia para se fundir à floresta, mas eu o encontrei. E o capturei. Há magia em mim também. E você viu o que aquele macaco fez. Não se vê aquilo todo dia.

— Macaco — balbuciou o cativo. — Taalkan.

Sua voz era baixa pensativa, uma mera sugestão de fala, como a de alguém que testemunhou um milagre. Kuaracymiri notou que havia desenhos de macacos na armadura espoliada. “Talvez o deus dos bárbaros seja um macaco”, pensou, “ou talvez ele só tenha medo de macacos”. Mbaraká se levantou e se dirigiu para a entrada. O cativo decidiu se manifestar:

— Dizem que sempre que vocês capturam uma guerreira rival, ela recebe um ou dois rapazes para se divertir antes de morrer. Eu ganho alguma regalia parecida?

Inesperadamente, a porta-escudos gargalhou.

— Talvez. Acho que há guerreiras que o considerariam menos feio se você ganhasse um pouco de carne. Aliás, comece a comer melhor ou minha tia precisará engordá-lo à moda antiga.

— Isso quer dizer que vamos cortar seus coquinhos — disse Kuaracymiri, muito satisfeita consigo mesma.

A fúria no interior de Mbaraká havia se convertido em outra coisa, algo que ela ainda não conseguia entender. Pôde ver que os bárbaros eram apenas homens, não monstros, afinal de contas. Mesmo assim, precisavam ser parados. Ela parecia possuir agora um talento que lhe daria vantagem no combate contra esses inimigos.

E por que as deusas haviam escolhido dar um dom tão precioso a uma pirralha?

Mbaraká voltou à reclusão. Depois do tabaco veio o vômito, depois as visões; por fim, a curandeira começou a arranhar sua pele para que o sangue de menina saísse e seu corpo pudesse crescer. O que fosse necessário para defender seu povo.



***



— Fale comigo! — disse à grande árvore, olhando para os ramos altos com impaciência.

Como não recebeu resposta alguma, esmurrou o tronco até seus punhos sangrarem.

No entanto, o muriqui não aparecia.

— Eu te segui. Fiz tudo que você mandou! Vencemos a batalha e agora serei uma guerreira completa.

Os ramos permaneciam mudos. Mbaraká caiu de joelhos diante da árvore e chorou.

Todas as meninas abayuká que passavam para a vida adulta precisavam enfrentar os pesadelos gerados pelo isolamento, pelas sangrias e pelo tabaco, mas geralmente encontravam respostas nestes pesadelos. Por noites a fio, Mbaraká não conhecera resposta alguma, apenas silêncio.

— Meu povo será destruído! Abayuká lutando contra abayuká, os bárbaros assolando todo o território!

Silêncio.

— TaalKan não fala. O melhor que podemos fazer é segui-lo e chamá-lo para junto de nós, mas nunca saberemos o que ele planeja.

— Relâmpagos! — praguejou Mbaraká.

A jovem saltou ao ver que o bárbaro cativo estava ao seu lado, solto e vestindo novamente a armadura, mas desarmado. A corda em sua cintura permanecia suspensa no ar, como se atada a um tronco invisível. Mbaraká olhou de novo para a árvore, que se tornava cada vez maior, os ramos cada vez mais distantes. A floresta ao seu redor aumentava, o silêncio mortal persistia. Os dois pareciam ser os únicos elementos humanos na paisagem em expansão. As únicas vozes no silêncio desesperador.

— Como você entrou na minha cabeça? — perguntou ela.

— Minha vida está nas suas mãos, e nós dois sabemos disso. Numa guerra homens e mulheres morrem sem mesmo saber qual é o seu papel, mas acho que temos um vínculo sagrado aqui, maaq’chan.

— O que isso significa?

— “Me conhece”. É como nós chamamos a pessoa que mais amamos e o inimigo que mais respeitamos. Nunca achei que minha maaq’chan seria uma mulher, quanto mais uma mulher-fera, mas você me viu através do véu da floresta e me capturou. E depois disso veio me ver cara a cara.

A voz do bárbaro era carregada de descrença e admiração.

— Estou feliz porque você me sacrificará, ainda que não seja a deus algum — disse ele. — É pedir muito que, quando chegar a hora, você permita que eu ofereça um pouco de sangue antes do golpe fatal?

Mbaraká desconfiou do bárbaro. Seria um estratagema? Ele se aproveitaria de sua misericórdia, derramando seu próprio sangue mágico na aldeia, empesteando o ar e esterilizando a terra?

— Nós usamos a magia para quase tudo, maaq’chandisse ele, respondendo aos pensamentos de Mbaraká — Mas quando queremos matar, usamos as mãos. Os deuses decidiram que era justo me entregar para você, e eu não pretendo contrariá-los. E mesmo que eu quisesse enganá-la, agora você está tanto na minha mente quanto eu estou na sua.

Com efeito, a abayuká não conseguia detectar malícia no velho inimigo, embora fosse capaz de sentir sua solidão, sua resignação diante da morte e conseguisse captar até mesmo as vibrações vagas da memória de um pai, de uma mãe, de amigos e de uma amante. Vibrações de uma infância distante se confundiram com as memórias da sua própria meninice. Palavras lhe ocorreram.

— Úkobako — disse ela, surpresa. — Este é seu nome.

— Na verdade, a pronúncia é Uk’bak — disse ele, divertido. Quando sorria discretamente, sem mostrar os dentes agudos, ele era moderadamente charmoso.

— Está certo, Úko — disse ela. — Quando chegar a hora de levar você ao centro da aldeia, vou permitir que você se sangre. Mas, em troca, quero que chame o muriqui de volta.

Ele estacou, e Mbaraká sentiu medo em sua postura. Ela também sentiu

— Temos um acordo, maaq’chan. Você me dará uma morte hajac, e eu invocarei TaalKan.

Uk’bak removeu seus colares e pulseiras de jade, depois os brincos e as joias que enfeitavam o rosto. À medida que ele desatava as peças de armadura que guardavam os ombros, as pernas e o peito, Mbaraká sentia como se um grande peso fosse abandonando seu corpo. Por fim, ele desamarrou as sandálias e a tanga, ficando completamente nu, exceto pela corda que o prendia ao nada.

TaalKan, aaah, TaalKan, aaah, pu’htacac, aaah, pu’htacac.

O canto vibrava como uma tormenta, e logo Mbaraká estava cantando em uníssono com Uk’bak. Cada tatuagem no corpo do cativo se acendeu, emitindo uma luminosidade esverdeada, e o corpo da abayuká vibrou junto. Um grande relâmpago rasgou a árvore muda, sendo seguido por trevas que tudo encobriam. Restava apenas a frágil luz verde emitida pelo corpo de Uk’bak, que jazia desmaiado. Trêmula, Mbaraká viu reflexos de verde pintarem o pequeno rosto e um corpo peludo diante de si.

O muriqui gritou e Mbaraká captou música em sua voz, começando a gritar no mesmo tom, com as mesmas oscilações. Ignorando a escuridão, o macaco subiu para os ramos altos com uma agilidade incrível e a jovem o seguiu, equilibrando-se como se não fosse mais humana. Seguiu-o para as trevas.

 
Mulher e muriqui, ilustração de V. M. Gonçalves

Continua...

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